
A polêmica sobre o tratamento hostil recebido pela estudante de Turismo da Universidade dos Bandeirantes reacende os debates sobre feminismo e gênero.
(Adriano Belisário)
(Adriano Belisário)
Não é de hoje que um par de pernas nuas pode mobilizar uma multidão. Em 1967, uma manchete do jornal gaúcho Zero Hora sentenciava: “Minissaia dá cadeia”. A notícia relatava a aventura de duas jovens que deixaram suas casas com saias pequenas, causaram furor nas ruas e foram presas pela polícia. Mais de 40 anos depois, pouco mudou. Vestida para ir a uma festa com seu namorado, Geisy Arruda trajava os curtos vestidos que foram o estopim de uma hostilização em massa na Universidade dos Bandeirantes (Uniban).
O repúdio à estudante não se limitou aos estudantes, que obrigaram Geisy a sair escoltada pela polícia. Agora revogada, a expulsão da jovem por mau comportamento reforçou a ideia que Geisy cometera um erro grave. “Os alunos que reagiram tão agressivamente são frutos de algo muito presente em nosso sistema, que é a agressão a tudo que é diferente. Existe uma hipocrisia e um falso moralismo também em âmbito mais amplo, como a situação de Silvio Berlusconi, por exemplo. Ele promove uma série de orgias e é ligado à Igreja Católica e representante da direita italiana.
É um falso moralismo que beira o fascismo”, analisa Rachel Soihet, historiadora da Universidade Federal Fluminense.Se hoje Geisy conta com o apoio de boa parte das feministas, a situação era ainda pior em meados do século passado. Na época, as próprias mulheres tachavam como vulgares certos comportamentos que hoje são muito bem aceitos. Foi o caso da atriz Leila Diniz, que sofreu os mesmos xingamentos lançados contra Geisy por mostrar sua barriga grávida nas praias cariocas. Soihet diz ainda que é preciso exercitar o respeito à alteridade e o reconhecimento de que cada pessoa é dona de seu próprio corpo.
Frutos do movimento contracultural dos anos 1960, estas noções ainda não amadureceram o suficiente, apesar dos avanços conquistados. “Durante muito tempo as mulheres estupradas nem iam à delegacia. As poucas que iam tinham que ouvir dos policiais que o estupro acontecera por causa de sua roupa ou certa atitude. A imprensa nem se envolvia tanto nisto, ao contrário de agora”.A historiadora recorda um episódio no qual a imprensa foi o palco principal dos acontecimentos. Em meados da década de 70, um diretor do Jornal do Brasil colocou as mãos nos peitos de uma recepcionista. Ao protestar, a moça foi demitida, assim como outras colegas suas que aderiram à reclamação. Jornalista do Pasquim, Sérgio Augusto repercutiu a indignação feminista. Para sua surpresa, porém, Ziraldo proibiu a publicação do nome do diretor: Izaac Pilcher. “Ele que falava tanto dos problemas da censura também a exerceu em seu jornal. Na época, apenas o Lampião da Esquina, um jornal gay, criticou isto e deu o nome do acusado”, comenta Soihet.
E as polêmicas sobre o corpo não são exclusivamente femininas. Em 1956, o artista modernista Flávio de Carvalho chocou São Paulo ao desfilar em vias públicas com uma saia plissada. A explicação deveria ser óbvia: ternos e calças eram inadequados ao nosso clima tropical. Já as roupas leves e curtas seriam ideais por permitir uma livre circulação do ar. Porém, apesar de causar surpresa e até mesmo indignação, as pernas de Flávio de Carvalho curiosamente foram mais bem aceitas do que as de Geisy.











